Jogos Eternos – Flamengo 2×3 Fluminense 1995

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Data: 25 de junho de 1995

O que estava em jogo: o título do Campeonato Carioca de 1995

Local: Estádio do Maracanã, Rio de Janeiro (RJ), Brasil

Juiz: Léo Feldman

Público: 112.285

Os Times:

Flamengo: Roger; Marcos Adriano (Rodrigo), Gélson, Jorge Luiz e Branco; Charles Guerreiro, Fabinho, Marquinhos e William (Mazinho); Romário e Sávio. Técnico: Vanderlei Luxemburgo.

Fluminense: Welerson; Ronald, Lima, Sorlei e Lira; Márcio Costa, Aílton, Djair e Rogerinho (Ézio); Renato Gaúcho e Leonardo (Cadu). Técnico: Joel Santana.

Placar: Flamengo 2×3 Fluminense (Gols: Renato Gaúcho-FLU, aos 30´ e Leonardo-FLU aos 42´ do 1º T; Romário-FLA, aos 26´, Fabinho-FLA, aos 32´ e Aílton/Renato Gaúcho-FLU, aos 41´ do 2º T).

“A barrigada eterna”

Eram mais de 110 mil torcedores no Maracanã. A maioria, 3/5, era rubro-negra. O Flamengo tinha o ataque dos sonhos com Romário e Sávio, além do badalado Luxemburgo no banco de reservas. Celebrava o centenário de sua fundação naquele ano de 1995. E nada melhor que comemorar o centenário com um título carioca em cima do rival, o Fluminense. A seca de títulos incomodava o Tricolor. Desde 1985 não via a cor da taça de campeão estadual. Favorito? Era o Flamengo, mesmo com as vitórias do Flu antes daquela decisão, que não era decisão, era o último jogo do octogonal, que acabou virando final. O Fla jogava pelo empate. O Flu precisava da vitória. O Flu abriu 2 a 0. O Fla empatou. O Flu teve dois expulsos. Depois mais um. Quando todos cantavam a vitória do Fla, aconteceu o improvável, o impossível. Aílton entortou seu marcador pela ponta direita quando o cronometro já passava de 40 minutos do segundo tempo. O meia chutou. A bola ia para fora. Ia. Renato Gaúcho, como quem antevê e sente a eternidade passando por seus olhos, meteu a barriga na pelota e a mandou pro gol. 3 a 2. Gol de título. Fim do jejum. E o início de gozações eternas pra cima do rival. Justamente no centenário rubro-negro. Era a glória tricolor em uma das maiores partidas da história dos Fla-Flus, que teve todos os itens que exigem um autêntico clássico: emoção, drama, estádio cheio, confusões, polêmicas, gols. É hora de relembrar esse jogo histórico.

Pré-jogo

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O Flamengo começou a temporada de 1995 determinado a conquistar todos os títulos possíveis para fazer do seu centenário único. Para isso, contratou o atacante Romário, que tinha acabado de dar ao Brasil o tetracampeonato mundial na Copa de 1994, além de ter sido escolhido pela FIFA o Melhor Jogador do Mundo naquele ano. O baixinho chegou com toda a pompa e pronto para ajudar o clube em 1995. Além dele, o rubro-negro trouxe o técnico Vanderlei Luxemburgo, recém-bicampeão brasileiro com o Palmeiras. Parecia que o ano seria mesmo do Flamengo. No Carioca, o time fez uma boa campanha, levou a Taça Guanabara e chegou até a última rodada do octogonal precisando apenas de um empate para conquistar a taça. O time era favorito, tinha mais torcida e a dupla Romário e Sávio no ataque. A única coisa que tirava um pouco o sono da equipe eram as partidas anteriores disputadas contra o Fluminense naquele torneio: foram duas derrotas, uma por 3 a 1 e outra por 4 a 3, e um empate em 0 a 0. Pelo lado do tricolor, o time também chegava à última rodada do octogonal com chances de título, mas apenas uma vitória dava o caneco ao Flu depois de 10 anos de jejum. A equipe era modesta, não tinha estrelas e contava com o “mestre da prancheta” Joel Santana como motivador e responsável por levar aquele grupo à “final”. Renato Gaúcho, Aílton e Djair eram os responsáveis pelas jogadas de ataque do tricolor e as esperanças para o título. O Maracanã poderia esperar um grande jogo.

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Primeiro tempo – Fluminense domina

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O jogo começou debaixo de muita chuva no Maracanã repleto para aquela grande final. Precisando do resultado, o Fluminense dominou a partida desde o início e viu o Flamengo acuado em seu campo de defesa. Só o tricolor atacava. De tanto persistir, o time foi premiado com um gol aos 30 minutos, após Renato Gaúcho superar a marcação de dois flamenguistas e, mesmo caído, chutar e marcar: 0 a 1. O gol não animou o Flamengo, que continuou pressionado. O tricolor seguiu atacando, abusando da velocidade e com a bola sempre passando pelos pés de Renato, Leonardo, Aílton e Djair. Aos 42 minutos, o Flu anotou mais um. Márcio Costa chutou de fora da área, fraco. Roger, do Flamengo, não segurou, Renato ainda tentou pegar o rebote, mas não conseguiu. A sobra ficou com Leonardo, que tocou com tranquilidade para o gol vazio: 0 a 2. O resultado dava o título ao Fluminense. O Flamengo, favorito, parecia desnorteado e irreconhecível. Para piorar, o goleiro Roger fazia uma partida horrorosa, inseguro e soltando bolas fáceis. A segunda etapa exigiria muito mais do rubro-negro. Superação. E mais futebol.

Os times em campo: esquemas parecidos mas com uma diferença: um (Flu) tinha mais garra e determinação que o outro (Fla).

Os times em campo: esquemas parecidos, mas com uma diferença: um (Flu) tinha mais garra e determinação que o outro (Fla).

Segundo tempo – tensão, drama, gols e imortalidade

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Na segunda etapa, o Fluminense perdeu a intensidade que demonstrara nos primeiros 45 minutos e ficou frio, mais postado na defesa do que no ataque. Já o Flamengo mudou. O time voltou com tudo e disposto a igualar o placar. Branco assustava nas bolas paradas, Romário se movimentava mais, Sávio usava a velocidade, a torcida jogava junto. O gol era questão de tempo. Aos 26 minutos, depois de um bate e rebate na área tricolor, a bola sobrou para Romário, que marcou o primeiro do rubro-negro: 1×2. Era o estopim para aquela decisão começar a ganhar os primeiros ares de tensão e drama. Querendo retardar o recomeço do jogo, os jogadores do Flu iniciaram uma confusão que resultou na expulsão de Sorley, do Flu, e Marquinhos, do Fla. O tricolor sentiu o gol e ficou ainda mais acuado. Já o Flamengo continuou a atacar e não ia sossegar enquanto não empatasse a partida, resultado que lhe convinha. Apenas seis minutos depois do primeiro gol, Fabinho fez uma jogada sensacional e conseguiu, num só lance, tirar três jogadores do Fluminense da jogada com um corte seco. O jogador rubro-negro chutou de perna esquerda sem chances para o goleiro Welerson: 2 a 2. O Maracanã explodiu. Era o resultado que o Flamengo precisava para ser campeão estadual no ano do centenário. A torcida cantava sem parar. O lado tricolor do Maracanã era silêncio puro. Para piorar, Lira, outro jogador de defesa do Flu, é expulso depois de uma falta duríssima em Fabinho (foi de carrinho com as duas solas na canela do flamenguista). Com nove em campo, parecia impossível para o Fluminense chegar a mais um gol. O time estava desesperado e atacava sem organização. Nem Ézio, ídolo e matador, conseguia brilhar. O Flamengo, num erro homérico, ficava na defesa ao invés de liquidar de uma vez o rival combalido. Perto dos 40 minutos, a torcida vermelha e preta já gritava “é campeão!”, os reservas se aglomeravam no banco de reservas e até faixas vinham dos vestiários do Flamengo para o início da celebração.

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Mas o Fluminense tinha o verde, o verde da esperança, pois quem espera sempre alcança. Aos 41´, o lance eterno começou a ser escrito. Branco chutou uma bola na área do Flu, Romário não foi nela, e ela sobrou para Cadu. O jogador tricolor tocou para Djair, que deixou com Ronald. Este lançou Aílton, sozinho, na ponta direita. O arisco e habilidoso meia partiu para o ataque, mas ninguém chegava para o apoio. Foi então que ele decidiu fazer tudo sozinho. Charles Guerreiro, do Fla, levou dois cortes secos e letais do meia tricolor. A torcida, tensa, só via uma opção para o lance: o chute em gol. Aílton chutou. A bola ia para fora. Mas, no meio do caminho, Renato Gaúcho, sem marcação, estava na pequena área. O atacante encolheu o braço, endureceu a barriga e desviou a trajetória da bola, que entrou no gol vazio de Roger: 2 a 3. Os 3/5 do Maracanã emudeceram. Os 2/5 de tricolores ecoaram a plenos pulmões, sem unhas, com lágrimas nos olhos, em estado de graça e delírio puro. Ninguém mais tinha dúvida: era o gol do título. Na súmula do árbitro, o gol tricolor foi dado a Aílton, mas até hoje a coautoria é de Renato Gaúcho (cuja barriga virou santa e é contemplada até hoje pelos torcedores como barriga de grávida). Mas ainda restavam pelo menos cinco minutos. Uma eternidade para o tricolor. Os jogadores estavam exaustos, o time teve mais um expulso (Lima) e se fechou na defesa com apenas oito homens. O Flamengo foi para o tudo ou nada, mas o tudo já era do Fluminense. Quando Léo Feldman apitou o final do jogo, estava sacramentado o feito tricolor: Fluminense Campeão Carioca de 1995.

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A festa foi enorme e o choro de emoção foi instantâneo, dos jogadores, da comissão técnica, da torcida. No ano do centenário do maior rival, o Tricolor conquistava o Carioca e colocava fim ao jejum de uma década sem títulos. E, lá de cima, Nelson Rodrigues, o mais imortal dos torcedores do Flu, com certeza fazia a festa com mais uma prova de que seu time era mesmo capaz das mais incríveis façanhas, como ele mesmo dizia:

“O Fluminense nasceu com a vocação da eternidade. Tudo pode passar, só o Tricolor não passará, jamais”Nelson Rodrigues.

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Pós-jogo: o que aconteceu depois?

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Fluminense: no embalo do título estadual, o Tricolor fez uma boa campanha no Campeonato Brasileiro daquele ano e chegou até as semifinais. Nela, meteu 4 a 1 no Santos e ficou com os pés na decisão. Mas o estoque de proezas da equipe havia se esgotado naquele Fla-Flu de 25 de junho. O time perdeu por 5 a 2 a partida de volta, num dos maiores jogos da história do campeonato nacional e com show do santista Giovani, e ficou fora da final. Depois disso, a equipe viveu seus piores anos com três rebaixamentos seguidos (e uma virada de mesa, em 1996) no Brasileiro, chegando ao fundo do poço em 1999, na Série C. O tempo passou e o time conseguiu se reerguer com o título estadual de 2005 e da Copa do Brasil de 2007, além dos vices da Libertadores de 2008 e da Sul-Americana de 2009. A ressurreição completa veio em 2009, quando reverteu todos os prognósticos matemáticos de mais um rebaixamento no Brasileiro e escapou da degola de maneira sensacional na última rodada da competição. Ali, nasciam os Guerreiros, que conquistaram os Brasileiros de 2010 e 2012 e o Carioca de 2012. A cereja do bolo foi uma vitória por 1 a 0 no aniversário de 100 anos dos Fla-Flus, no nacional de 2012. O gol veio de um chute. Mas, para a torcida tricolor, teria sido melhor se fosse de barriga…

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Flamengo: o centenário rubro-negro, para desespero de toda torcida, virou o “sem ter nada” naquele ano. O clube não conseguiu títulos e só levantaria o Carioca em 1996. Nos anos seguintes vieram conquistas menores, como a Copa Ouro de 1996, a Mercosul de 1999 e a Copa dos Campeões de 2001, além de vários estaduais. O time só voltou a conquistar troféus maiores a partir de 2006, ano do bicampeonato da Copa do Brasil, e em 2009, ano do título do campeonato brasileiro. Em 2012, no centenário dos Fla-Flus, o rubro-negro mostrou mesmo ter trauma de celebrações desse tipo e perdeu o jogo que comemorava a data para o rival Tricolor. Uma derrota tão indigesta quanto em 1995…

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Extra:

A final

Veja os lances e os gols daquele jogo eterno.

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